Origem da Igreja e Ministérios (I)

Se lermos atentamente o Novo Testamento podemos ver que a Igreja não nasce de um modo hierárquico ou segundo um programa previamente bem definido. Não encontramos em Jesus um esquema detalhado de uma Igreja que continue a sua missão na Páscoa: Jesus anuncia o Evangelho do Reino de modo comunitário, reunindo discípulos que o seguem e multidões que o escutam. À medida que caminha para Jerusalém, Jesus parece tomar cada vez mais consciência de que a inauguração do Reino liga-se absolutamente ao seu mistério pessoal, à sua missão à qual o Abbá dará pleno cumprimento, numa morte que com os olhos da história foi infligida pelas autoridades romana e judaica.
Assim, Jesus não é o fundador da Igreja no sentido em que dá início a uma organização, para que esta depois continue; Ele é o Ressuscitado, a sua Vida é assumida e glorificada na própria Vida de Deus, na dignidade e intimidade de Filho. Neste sentido, a Ressurreição de Jesus, a sua Páscoa, é a plena realização do Projecto Salvador de Deus para a Humanidade, do seu Reino: na Páscoa de Jesus o Espírito de Deus torna-se Dom para toda a Humanidade, n’Ele somos assumidos e gerados na Família Divina como Filhos em relação a Deus-Pai. Na vida de Jesus inaugura-se a Salvação para toda a Humanidade como Vida Nova e Filial.
Segundo os relatos dos Evangelhos, Jesus testemunha este Mistério na Ceia com os seus discípulos antes da sua Páscoa: é na sua Vida entregue, como Pão partilhado e Sangue derramado, no seu Mistério Pessoal que se inaugura a Nova Aliança de Deus com a Humanidade. Aliança Familiar, Aliança de Salvação. A sua Ressurreição é a inauguração do Reino esperado e anunciado.
É aqui, nesta Ceia que a Igreja nasce, não como programa ou organização lançadas por Jesus, mas como Comunidade dos Discípulos que fazem a Memória da Vida entregue do Senhor e testemunham a inauguração do Reino de Deus. A Promessa de Jesus de que não se romperá a comunhão com os discípulos é plenamente confirmada na sua Ressurreição: «Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus» (Mc 14,25). A sua Vida entregue é assumida por Deus-Pai gerando-o no seu Amor, como Filho. «E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo: Tu és meu filho, Eu hoje te gerei!» (Act 13,32-33).
Reunindo-se em Comunidade, os discípulos fazem a Memória da Vida entregue de Jesus, da sua passagem pela Galileia «fazendo o bem e curando todos os que viviam oprimidos pelo mal, porque Deus estava com Ele» (Act 10,38). E ao fazer esta Memória, os discípulos reconhecem a sua Presença como o Ressuscitado, Aquele em quem se inaugura a Plenitude dos Tempos de Salvação (Gal 4,4). A Igreja nasce neste testemunho dos discípulos, neste Evangelho ou Boa-Notícia: a Ressurreição de Jesus.
Os Doze Apóstolos tornam-se, no seio da Igreja Nascente, as testemunhas privilegiadas da Vida de Jesus e da sua Ressurreição (Act 1,22). Eles não são os fundadores da Igreja nem o topo de uma hierarquia, mas as testemunhas privilegiadas da Tradição da Ressurreição numa Igreja que rapidamente nasce com os discípulos a reunirem-se em Jerusalém, na Galileia, Samaria, Antioquia…
Tanto Paulo como Lucas nos testemunham que é vasto o grupo dos discípulos que se reúne na Fé no Ressuscitado, onde muitos provavelmente terão contactado com o próprio Jesus na história. «Apareceu a Cefas (Pedro) e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim» (1Cor 15, 5-7).
É nesta dinâmica que a Igreja nasce, na Palestina do século I sob o Império Romano. A Igreja nasce como comunidades de discípulos que se reúnem para celebrar a Memória da Ceia do Ressuscitado e testemunhar o Evangelho do cumprimento das Promessas. O Novo Testamento não nos dá um regulamento sobre a organização e funcionamento das comunidades cristãs, mas fornece-nos os critérios fundamentais para as relações entre os discípulos. «Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35).
É neste contexto que surgem os ministérios na vida das comunidades, como carismas colocados ao serviço da construção do Corpo de Cristo, da mediação da Presença e Acção do Ressuscitado no Mundo. «Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro» (1Cor 12,12-13.27). Entre os muitos ministérios encontramos os de episcopo e presbítero, na missão de liderança das comunidades.
um grande abraço e boa semana!
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Sobre economiadasalvacao

Missionário Redentorista, a viver em V.N.Gaia ruipedro.cssr@hotmail.com
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Uma resposta a Origem da Igreja e Ministérios (I)

  1. Rui PedroObrigado pelo rosto bonito que nos apresentas da Igreja nascenteUm abraçoCalmeiro Matias

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