O Evangelho nada diz: nem que sim, nem que não…

É sexta-feira e regressa, de novo, o tema do jejum. Não pertence ao fundamental da Fé nem sequer terá um lugar como proclamação do Projecto Amoroso e Ternurento de Deus. Mas tem-me andado na cabeça uma descoberta e partilho-a hoje, que vem a calhar.
O Evangelho nada diz sobre o Jejum. Nada recomenda ou prescreve. Isto para mim é libertador. Não porque o Evangelho diga para não jejuar, não é isso. Simplesmente nada diz. Nem diz para jejuar, nem diz para não jejuar. Fica à consciência de cada pessoa. De Jesus apenas encontramos “quando jejuardes” ou “se jejuardes”… (Mt 5, 16).
O Jejum é um aspecto quase comum às tradições religiosas: lembro-me do Ramadão dos muçulmanos, por exemplo. Quase pertence àquela atitude que os crentes naturalmente têm diante de Deus: sabem que não O muda nem é isso que O torna favorável, mas sim o seu próprio Amor e Graça, que são por si Favoráveis: «Superabundou a Graça», proclama Paulo (Rom 5,20).
Conhecemos a Liberdade que o Novo Testamento reconhece quer diante do Jejum, quer diante de todas as tradições religiosas. Jesus faz a crítica, não do jejum, mas do farisaísmo e da sua maneira de viver o jejum: «desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam» (Mt 6,16). Como não recordar já a critica do profeta Isaías:
«É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto (…) O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Is 58, 4-7).
E é interessante como para Isaías esta fraternidade e justiça que o jejum significaria é um movimento de humanização para o próprio crente: talvez esteja aí o essencial. «Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente» (Is 58,8).
E como não recordar a critica mordaz de Paulo: «Se morrestes com Cristo para os elementos do mundo, porque é que vos submeteis a normas, como se estivésseis ainda dependentes do mundo? Não tomes, não proves, não toques em coisas, todas elas destinadas a ser consumidas; coisas de acordo com os preceitos e ensinamentos dos homens! São normas que, embora tenham uma aparência de sabedoria – a respeito do culto voluntário, da humildade, da austeridade corporal – não têm qualquer valor; só servem para satisfazer a carne» (Col 2,20-23).
Fica recusada, portanto, toda a tentação farisaica que só serviria para se tornar superior aos outros e sentir-se merecedor, possuidor, conquistar da Graça – haverá maior absurdo?
Um outro texto, do Evangelho de Marcos, é significativo: aqui vem presente a experiencia histórica de que os discípulos de Jesus não seguem os costumes dos discípulos de João Baptista e dos fariseus de jejuar. «Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, vieram dizer-lhe: «Porque é que os discípulos de João e os dos fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu: «Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. Dias virão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão-de jejuar.» (Mc 2,18-20) Hoje pergunta-se o significado deste Esposo que lhes é tirado. Eu partilho a minha leitura pessoal.
Nas comunidades proclama-se e celebra-se a Presença daquele que é o Ressuscitado, cuja Vida é tornada Universal e Plena para todos os Homens. Os discípulos caminham numa experiencia de se unirem, de pertencerem a este Homem cuja Vida não é já a sua vida mas a Vida de toda a Humanidade: uma Vida Filial, Pascal, um Corpo animado por um Espírito, logo o Espírito de Deus, o Santo (Rom 12,5).
Mas, ao mesmo tempo, o Presente ainda é o Esperado: sim, nós ainda não somos completamente presentes n’Ele, a nossa relação ainda não é evidente, o Homem Novo ainda está a nascer, a Humanização ainda é um processo e uma história a escrever-se, o pecado e o sofrimento continuam a marcar à nossa volta. O Esposo… Como não recordar o grito de Paulo: «Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo» (Rom 8,23); ou então o seu desabafo, que só os mártires têm o direito a repetir: «Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós» (Flp 1,23).
O Esperado ainda é um Ausente: de imediato é isso que experimentamos, é aí que está o sensível. E reconhecemos, e proclamamos, e celebramos que Ele é o Presente, o Ressuscitado, e a nossa vida está a nascer, no lado interior e pessoal, por Ele, para o Pai, no Espírito; tá bem….
Entrará aqui o jejum como símbolo? Não sei, o Evangelho não o diz. O jejum não pertence, de longe, ao centro da Boa Noticia de Jesus; a tradição do jejum à sexta, na Igreja, não passa de «tradições humanas» que, quando postas contra a fraternidade, merecem a critica que Isaías e Jesus lhe dirigem (Mt 15,9). São tradições humanas, como tantas outras: precisamos delas, destas ou de outras, sem nos apercebermos.
O que me é significativo é que o Evangelho nada diz. Não faz sentido pregar o jejum. Pertence à opção pessoal de cada um, na sua relação com o Ressuscitado, uma relação a caminhar, à procura ainda…
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Sobre economiadasalvacao

Missionário Redentorista, a viver em V.N.Gaia ruipedro.cssr@hotmail.com
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