Lc 10,38-42: Marta e Maria

Com dedicatória.
Escolheste a melhor parte, que não te será tirada.

Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.» (Lc 10,38-42)

Um texto importante, lido à luz de todo o Evangelho de Lucas; surge no chamado “Caminho para Jerusalém”, uma decisão fulcral na missão de Jesus (Lc 9,51) que se assemelhará, em Lucas, a um cortejo de um rei a entrar na sua capital, com mensageiros a irem à frente a preparar o caminho (Lc 9,52). Aqui surge a missão dos 72 discípulos (Lc 10,1), a recordar os 70 anciãos que ajudavam Moisés a conduzir o Povo e que recebem também o Espírito de Deus (Num 11,16).

É o Caminho dos simples que levam Jesus a «estremecer de alegria sob a acção do Espírito Santo (Lc 10,21), é o Caminho do Samaritano que se faz próximo e também o Caminho de todos os feridos e desprezados. É o Caminho dos que se descobrem filhos e por isso dizem, privilégio tão grande, Pai-Nosso a um Abbá «que dará o Espírito Santo a aqueles que lhe pedem» (Lc 11,13). Esse Caminho é Jesus (Jo 14,6), tornam-se os próprios discípulos, a Igreja (Act 9,2), Caminho no qual Paulo descobre o seu Senhor.

É neste Caminho que surge a Casa, onde «os crentes partiam o pão, em suas casas» (Act 2,46), na qual Jesus é recebido, o Senhor (Kyriôu), já o Ressuscitado, o Senhor dos Discípulos e da História, de quem, sentada aos pés, Maria escuta a Palavra (Lc 10,39).

Tradicionalmente faz-se uma leitura redutora do texto: nele se projectam dois hipotéticos papéis da mulher como discípula de Jesus, seja em serviços secundárias, seja a ouvir passivamente, sempre de modo subordinado como que a uma autoridade masculina e patriarcal. Ou então, como a contraposição entre dois caminhos de vida em Igreja, um activo e outro passivo/contemplativo, do qual este seria o preferido do Senhor. Não podemos ser apressados a julgar as palavras de Lucas.

Em primeiro lugar, Marta: o seu serviço é designado pelo termo Diakonia por duas vezes, no v.40. Diakonia é um termo muito importante na obra de Lucas: basta, sem grande esforço, recordarmo-nos das 7 figuras do livro dos Actos dos Apóstolos designados de Diáconos que, se inicialmente estavam designados para assegurar a partilha dos bens pelas viúvas helenistas (Act 6,1), tornam-se, segundo Lucas, os responsáveis pela evangelização e expansão da Igreja para fora de Jerusalém (Estêvão e Filipe). Certamente não é em serviços secundários e inferiores que pensamos quando ouvimos Jesus dizer: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve (diakonôn)» (Lc 22,27).

Portanto, vemos em Marta uma das dimensões que constituem a Igreja, Casa que recebe o Senhor, a Diaconia ou Serviço. É um dos pilares que, para Lucas, forma a natureza da Igreja: quase a recordar o papel da Mãe de Jesus que, como em sua casa, dá ordens aos servos para que obedeçam a Jesus, em Canã (Jo 2,5).

Por outro lado vemos a irmã Maria (comunidade de irmãs e irmãos) que escuta, aos pés do Senhor, a sua Palavra. Ícone magnífico de discipulado, a par da Diaconia de Marta. Escuta da Palavra, uma atitude passiva, sim, mas no seu sentido bíblico: na Bíblia é a passividade que transforma, não a actividade como estamos habituados a pensar. A passividade dos Profetas, a quem a Palavra acontece nas suas vidas de modo totalmente inesperado, que os leva a ser mediação de revelação; Palavra que reúne a Igreja.

Portanto, em vez de papéis secundários e concorrentes, Lucas apresenta a Igreja enquanto Comunidade do Senhor, Comunidade de Diaconia e Palavra, na imagem de duas mulheres. Igreja, Esposa de Cristo (Ef 5,25) de quem Paulo tem ciúmes (2Cor 11,2) como Israel o era de Javé no Antigo Testamento. A repreensão de Jesus a Marta não é pela sua Diaconia, mas pela sua inquietação que a leva a querer dar ordens ao seu Senhor, como Pedro o tentou fazer também repreendendo a Jesus à parte sobre a sua missão messiânica (Mc 8,32).

Comunidade de irmãs e irmãos, comunidade que recebe o Senhor em sua Casa tornando-se Templo (1Cor 3,16), comunidade de irmãs e irmãos que vai descobrindo, nas experiencias de morte, a força de Vida do Senhor que também é capaz de chorar por Lázaro (Jo 11,35). Comunidade de Palavra e de Diaconia, unidas pelos vínculos de irmãos, cujo único Senhor é o Ressuscitado. Igreja que se torna a Casa de todos aqueles que, após o Senhor, o seguem no Caminho, no Caminho para Jerusalém, e o anunciam dois a dois nas cidades e aldeias.

um grande abraço!

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Sobre economiadasalvacao

Missionário Redentorista, a viver em V.N.Gaia ruipedro.cssr@hotmail.com
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