Diante do mal e do sofrimento, uma Vida vivida, entregue…

Após uma (grande!) pausa, continuo a nossa caminhada de antropologia, hoje com a resposta de Jesus perante a experiencia do sofrimento e do mal.

A evidencia do sofrimento e do mal percorre toda a história bíblica, como vimos logo no texto de Gen 2,25-3,24. Sobretudo nos Profetas e nos chamados livros sapienciais (Job, Qoélet, os próprios Salmos), encontramos muito presente esta realidade.
Essencialmente, a Biblia (e hoje a reflexão dos crentes) não procuram explicar ou dar respostas para o mal. Nem procura uma resignação perante esse mistério, contrariamente ao que costumamos pensar. O mal e o sofrimento surgem precisamente como um escândalo perante a experiencia de fé no Deus Libertador, e logo a necessidade de o combater. Por aí a resposta do autor de Gen 2,25-3,24, quando aponta o mal como origem na história (e não da natureza ou do Projecto de Deus) e ligando-o sobretudo à responsabilidade do Homem.
Assim, a Biblia torna-se muitas vezes a procura de como acreditar apesar e na experiencia do mal e do sofrimento. Aí encontramos a experiencia de Jesus de Nazaré: não fez discursos nem procurou explicações teóricas sobre esse mistério. Não convidou à passividade nem à resignação, pelo contrário: foi um homem que viveu, sofreu e lutou contra o mal.
Os Evangelhos são percorridos permanentemente por episódios da luta de Jesus contra todas as forças de opressão do ser humano, sobretudo dos mais frágeis. Na sua linguagem própria, os Evangelhos narram a luta de Jesus contra os espíritos impuros que oprimem o ser humano, vencendo-os com o poder libertador de Deus, o Espírito Santo: «Mas se Eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós» (Lc 11, 20).
Jesus foi um homem que acreditava profundamente na bondade da Criação e do ser humano. Provam-no a sua confiança, a sua alegria e sabedoria ao contar as parábolas do Reino. As pessoas que com ele se encontram experimentam um profunda libertação. Em todo o caso, Jesus foi um homem que experimentou na carne, até ao fim, o mistério do pecado, do sofrimento e do mal. Ao longo do seu mistério depara-se com todas as causas de opressão e desumanização; encontra-se com forças contrárias que procuram bloquear o seu ministério. É morto e crucificado pelos poderes instituídos do seu tempo, politico e religioso, terminando a sua acção transformadora da sociedade.
E desde o Jardim das Oliveiras até à Cruz, Jesus, abandonado pelos discípulos e perante o fracasso da sua missão, não deixa de perguntar pelo Abbá que sempre o acompanhou: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mc 15,34). Sabe melhor do que ninguém do que falamos, sabe o que é o sofrimento injusto, e sabe o que é perguntar por Deus nessa situação, como o afirma continuamente a carta aos Hebreus: «Nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas àquele que o podia salvar da morte, com grande clamor e lágrimas, e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu» (Heb 5, 7-8).
A resposta de Jesus? Prática. Não um discurso, ou uma teoria. Tornou-se mediação de libertação e transformação pelo seu Amor, pela sua proximidade e acolhimento de todos os marginalizados do seu tempo. Convidou a uma nova ordem de relações marcadas pelo perdão, pelo amor aos inimigos e pela iniciativa e gratuidade do serviço. Sobretudo, uma tremenda : acredita que este é o mundo de Deus, onde Deus se faz presente com o seu Reino, o seu poder Salvador, a sua Graça, mesmo no meio de todas as situações de sofrimento, de pecado e de morte. Um Deus com-passivo, de Com-Paixão, que sofre connosco, assume connosco e connosco dá a resposta através da libertação pessoal e integral.
E, a partir da Ressurreição, a fé dos discípulos proclama que o Juizo de Deus está inaugurado como vitória definitiva; não contra os assassinos de Jesus, nem contra os “maus e impuros”, numa lógica de justiça humana. Mas como emergência irreversível de Vida e Amor que vence até a morte e se torna esperança de um Reino onde «não haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor» (Apc 21,4), um Reino já a emergir na história pela presença do Espírito do Ressuscitado, o Espírito Santo que como «Amor de Deus derramado nos nossos corações», faz acontecer o Perdão, a libertação, o Bem e a Justiça. Na certeza das palavras do Ressuscitado, «Bem-aventurados…»
um grande abraço
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Sobre economiadasalvacao

Missionário Redentorista, a viver em V.N.Gaia ruipedro.cssr@hotmail.com
Esta entrada foi publicada em A Pessoa nos horizontes da fé. ligação permanente.

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