para variar, uma crónica

Bem… Vamos hoje escrever um post digno de quem se encontra de férias (os honestos trabalhadores de verão que me perdoem hihi). Trata-se de uma espécie de crónica de viagem que partilho aqui convosco.

Chego de manhã cedo à estação de S. Bento, onde compro o meu bilhete; destino: Pocinho; percurso: linha do Douro; motivo: passeio.
Entro no comboio que me levará neste passeio: não é um daqueles modernos, amarelinhos, que fazem as linhas suburbanas; é um daqueles comboios cinzentos, a gasóleo, anos 70. Gosto. Gosto destes, porque fazem aquele barulho característico, a saltar sobre as placas da linha; os novos são demasiado silenciosos, nem parecem comboios…
Entro, espero um pouco, e daí a nada sinto o comboio a partir, a arrancar, a puxar pelos motores, lentamente… Hoje parto – não fico em terra, apenas, a vê-los passar, enfiado nos ritmos quotidianos, nos horários, no mesmo de sempre. Hoje não. Hoje deixo-me levar por este velho amigo, numa aventura, deixo-me levar, nem que seja por um dia, deixo-me levar para longe destes prédios. Hoje é ele quem me leva – o comboio. Não o trocava nesta viagem pelo automóvel nem por todo o ouro do mundo: primeiro, porque nenhum automóvel pode sonhar chegar tão perto do rio como chega o comboio; depois, porque assim eu sou levado.
Passam as estações, algumas delas sem parar, com uma velocidade suficiente para sentir o gosto da viagem – nem demasiado grande, nem demasiado pequena. Ao contrário do costume, não levo nenhum livro, nem o mp3 para a viagem. Não, apenas me deixo sentir a viagem, sentir-me a ser levado, e não largo os olhos da janela – para lhes dar outras visões para além daquelas de todos os dias.
Pouco depois de passar o Marco de Canaveses, eis o momento esperado: o Rio. Sim, o rio que nos acompanhará ao longo da viagem, ou nós é que o acompanharemos pois ele já lá estava, sempre lá esteve, no seu percurso silencioso.
Régua: a partir daqui, é o desconhecido. Já tinha feito algumas vezes a viagem até lá, mas nunca continuei. Uma voz, talvez do medo, diz-me: a partir daqui é o desconhecido, não sabes o que vais encontrar. Continuo. Do Porto até à Régua é metade da viagem, 1h e 45m; da Régua até ao Pocinho, outro tanto. Mas devo dizer que a partir daqui é que a viagem começa verdadeiramente.
Para lá da Régua, terminam as vilas, as estradas, as docas para os barcos. Agora, o comboio segue sempre ao longo do rio, lado-a-lado, quase apetece abrir a janela e estender o braço para ver como está a água. As paragens, agora, são em apeadeiros abandonados, tirando as estações do Pinhão e do Tua. A paisagem consiste apenas em encostas, encostas altas, sobrepondo-se cada vez mais, abertas apenas pelo Rio. E, de vez em quando, casas, singulares, totalmente separadas umas das outras, casas que pertencem às quintas do Vinho do Porto, algumas com nomes ingleses, outras portugueses.
O comboio esvazia-se na Régua: praticamente fico sozinho na carruagem. Apenas o rumor do comboio que continua a levar-me onde eu não sei nem conheço. Aos olhos, apenas o espectáculo do rio e das encostas que nele terminam. Hora e meia de solidão, apenas com os sentidos a trabalhar; decidi neste dia não pensar, nem no passado, nem no futuro. Apenas deixar-me levar, observar o espectáculo que me era oferecido, e deixá-lo falar-me. E falou-me, e muito.
Falou-me da minha história a acontecer, a ser escrita, tal como eu era levado naquela viagem. Fala-me do rio que me acompanha, do rio que sempre lá esteve, tal como aquele que me leva nesta história escrita a dois – por sorte, por uma série de acontecimentos e opções, não sei. Falou-me da minha história que passa por fases, por momentos, por experiencias – a viagem não é sempre igual. Falou-me que, diante da experiencia de Graça que é conhecer e descobrir o Evangelho de Jesus, o Evangelho que é o próprio Ressuscitado, a nossa vida não fica igual. A descoberta do Evangelho surge para nós como uma chamada, uma vocação, um apelo a responder, a corresponder, a sintonizar com o Ressuscitado, e a construir uma vida a dois. Cada um sabe como escrever a sua história a dois, na presença e no amor do Nazareno. Na minha vida aconteceu assim, e é assim que eu escrevo com ele a minha história, e faço a minha viagem.
Pocinho: para um moço da cidade como eu, que lá nasceu sem qualquer referência a uma aldeia, que pensa que os ovos vêm do supermercado e as batatas crescem nas árvores, o Pocinho será uma desilusão. Uma aldeia marcada pela presença da barragem e da Cimpor que torna desagradável a margem do Douro. A 10km, fica a vila de Foz Côa. O comboio deixa-me à 1 e vem-me buscar às 5 e meia. Até lá, fico parado, a olhar o rio, a pensar nestas coisas da nossa história. No regresso, mais 3 horas e meia de pura viagem, de puro deixar-me ir ao sabor do velho comboio a vencer a linha, da paisagem imponente, da paz do rio…
Um passeio que verdadeiramente vale a pena: para quem quiser desintoxicar-se dos barulhos da cidade e da overdose de informação e imagens, não há nada melhor. A viagem pela viagem, com o único rumor do comboio a circular, e com a única paisagem do rio e das encostas imponentes. E, para quem tiver essa sorte, boas férias!
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Sobre economiadasalvacao

Missionário Redentorista, a viver em V.N.Gaia ruipedro.cssr@hotmail.com
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